domingo, 6 de dezembro de 2009

Rafael Bordalo Pinheiro



Pai da caricatura mais portuguesa de todos os tempos - o “Zé Povinho” -, Rafael Bordalo Pinheiro é um dos vultos da imprensa nacional, sobretudo a que se relaciona com a sátira política. Foi o mentor da banda desenhada em Portugal e no Brasil. Com o riso, fazia “o milagre da sátira contra o país da monotonia”, refere o historiador Rui Tavares. Tinha o exercício metódico da imaginação. Mas a sua arte não se resumiu aos desenhos. Impulsionou a indústria cerâmica das Caldas da Rainha, onde fundou uma fábrica de louça e, mais uma vez, evidenciou o seu talento. Foi um industrial do entretenimento. Um emblema da cultura portuguesa.

– Contrair Conteúdo
Um grande português é aquele que se torna autor da própria história. É o caso de Rafael Bordalo Pinheiro. O criador da banda desenhada em Portugal, um dos maiores a nível mundial, nasceu em Lisboa e, desde cedo, fomentou o gosto pelas artes, influenciado pelo pai. Foi com este que iniciou o estudo do desenho, primeiro a pincel e depois a lápis, dedicando-se à criação de “cartoons” nos jornais. Não é por acaso que é reconhecido como uma das figuras mais importantes na história da imprensa portuguesa. Foi ele que inventou o “Zé Povinho”, personagem mítica que ainda hoje é tida como a imagem do português revoltado com o poder.

Actualmente, “continuamos a usar o registo humorístico que ele inventou e introduziu na imprensa, desde finais do século XIX até quase aos dias de hoje”, revela o professor universitário José Miguel Sardica. Bordalo Pinheiro era como uma criança: adocicava a vida com humor e sarcasmo. Sempre recusou a imbecil veneração aos poderes instituídos e aos políticos que os representavam. Ganhou, por isso, um exército de inimigos.

Para aperfeiçoar o traço, Rafael Bordalo Pinheiro frequentou o Conservatório e a Academia de Belas-Artes, em Lisboa. Os estudos, associados ao seu apurado sentido crítico e ao talento que sempre lhe correu nas veias, fizeram com que se tornasse num dos mais espirituosos e delicados caricaturistas, rivalizando com os melhores profissionais estrangeiros. Apesar de ter colaborado na “Illustración de Madrid”, na “Illustración española y americana” e de o seu nome ter surgido na “Illustrated London News”, nunca teve o reconhecimento internacional que merecia, por criar “uma obra que dificilmente se compreende no estrangeiro, que diz respeito aos nossos hábitos, costumes, políticos e casa real”, explica Miguel Soromenho, historiador de Arte. A excepção aconteceu no Brasil, país para onde o artista emigrou em 1875, ano em que desenhou a sua personagem mais célebre, o “Zé Povinho”. Nesta data, o caricaturista já alcançara a fama em Portugal, por ter lançado as publicações “O Calcanhar de Aquiles” (álbum de caricaturas de homens notáveis), “A Berlinda”, “O Binóculo” (primeiro jornal a ser vendido nos teatros) e “Mappa de Portugal” (do qual se venderam 4 mil exemplares num único mês). Mas foi principalmente a sua participação em “A Lanterna Mágica”, primeiro jornal diário de crítica a que também pertenciam Guerra Junqueiro, Guilherme de Azevedo e Lino de Andrade e onde o artista publicou o “Zé Povinho”, que o lançou para o sucesso. “É aquela marca sociológica que existe em Portugal, das massas excluídas da intervenção cívica, excluídas da participação social e que, de repente, se revêem naquele desenho e passam a identificar-se com o próprio ‘Zé Povinho’. Alguém que se revolta, que reage, que tenta contrariar o Estado instituído”, enuncia José Miguel Sardica. Bordalo personifica a crítica mordaz no seu melhor.

Ao partir para o Rio de Janeiro, convidado para dirigir o jornal “O Mosquito”, Rafael conheceu o sucesso além-fronteiras. Depressa abandonou a publicação para lançar dois outros jornais, o “Psit!!!” e “O Besouro”, que tiveram enorme impacto na cultura daquele país. Quando regressou a Portugal, em 1879, este homem multifacetado criou o “António Maria”, outro grande sucesso artístico, e “Pontos nos ii”, jornal muito bem aceite pela população. Teve “a consciência de que o riso é uma arma. Inventa uma linguagem e, ao inventá-la, inventa até uma nova forma de ser”, explica José Miguel Sardica.

Mas não foi só no desenho que Rafael Bordalo Pinheiro se notabilizou. Em 1885 construiu uma fábrica de louça artística nas Caldas da Rainha que o fez brilhar como ceramista. De facto, não se descobrem novas terras sem perder de vista a costa durante muito tempo. As suas peças (jarras, vasos, bilhas, jarrões e pratos) revelam técnica e criatividade imensas, que percorrem o barroco e o decorativismo, características que também estão presentes nos seus trabalhos gráficos. Na louça nova das Caldas, todos os motivos decorativos são tirados da fauna e da flora locais ou dos utensílios domésticos do povo.

Rafael Bordalo Pinheiro desenhou também uma baixela de prata, da qual se destaca um faqueiro muito original, que executou para o 3.º visconde de S. João da Pesqueira, e criou variadíssimas e distintas encomendas para a decoração de palacetes, desde azulejos, painéis, floreiras, centros de mesa, bustos, molduras, caixas, além de alfinetes de peito e frascos para perfume, entre outros pedidos originais. Na cerâmica, o artista não pôde deixar de moldar determinadas esculturas que para sempre ficarão na história, como o óbvio “Zé Povinho”, representado em inúmeras atitudes, a “Maria Paciência”, a “Mamuda Ama das Caldas”, o “Polícia”, o “Padre Tomando Rapé” ou o “Sacristão de Incensório nas Mãos”.

Na Exposição de Paris de 1889, foi Bordalo Pinheiro quem dirigiu a construção do pavilhão português. Nele, agrupou os produtos nacionais com mão de mestre. Expôs as suas faianças das Caldas e passou a ser admirado naquele grande centro. Os mais conhecidos decoradores, pintores a aguarelistas franceses foram-lhe apresentados e os jornais teceram-lhe rasgados elogios. Era certo que tinha conquistado o estatuto de estrela e que era motivo de orgulho nacional. E não só do público erudito. De todos os públicos. Ele era “a dimensão castiça da nossa identidade”, identifica-o Dalila Rodrigues, directora do Museu Nacional de Arte Antiga.

Nunca interrompeu a actividade jornalística, e o seu último jornal foi “A Paródia”, publicado em 1900. Três anos depois, a Associação dos Jornalistas ofereceu ao distinto artista um álbum em que colaboraram muitos dos mais entusiastas admiradores do seu talento privilegiado.

Apaixonado pelas viagens, Rafael Bordalo Pinheiro é irmão de outro vulto da cultura portuguesa, Columbano Bordalo Pinheiro, e pai de Manuel Gustavo, caricaturista apreciável e professor de desenho na Escola Rodrigues Sampaio. Conhecido para sempre pelo seu inegável talento, Rafael provou que “a arte pode existir nos jornais”, como defende Raquel Henriques da Silva, professora de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Ele tinha uma característica muito própria: sabia rir-se de si mesmo. “É alguém que transcendeu de forma brilhante o choradinho português”, resume Rui Tavares.


http://www.rtp.pt/gdesport/?article=99&visual=3&topic=1

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