sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ao encontro da natureza


Passear a pé num cenário verdejante, povoado por várias espécies de animais. Uma sugestão
para os verdadeiros apreciadores da Natureza..
Calçado confortável, merenda e chapéu. São poucos os apetrechos necessários para percorrer os trilhos do Baixo Vouga Lagunar – região situada a nordeste de Aveiro – onde, em cada estação do ano, temos a certeza de observar vida selvagem em abundância. À lista poderá também acrescentar-se um binóculo, guia de aves para identificar toda a fauna alada que se irá certamente cruzar connosco e, eventualmente, um roteiro que nos ajude a seguir pelos trilhos certos, sem correr o risco de acrescentar quilómetros desnecessários ao percurso enquanto vagabundeamos por ali.

Nesta saída os madrugadores têm vantagem, não só pela oportunidade de assistir ao despertar da paisagem sob as brumas matinais, mas porque ao nascer do dia são mais elevadas as hipóteses de encontrar algum mamífero esquivo, como a lontra, o toirão ou a doninha. E se andar a pé nos permite reparar nos detalhes mais subtis, escutar um restolhar entre as ervas ou reconhecer um pio distante, a bicicleta, frequentemente utilizada pelos locais, é também uma óptima opção.

É, pois, bem cedo que se aconselha a iniciar este percurso, junto ao apeadeiro da pequena localidade de Salreu. Um trilho de terra batida acompanha o canal pelo lado esquerdo, à medida que este sulca o solo em direcção a poente até se fundir, quilómetros adiante, com as águas abertas da Ria de Aveiro. Logo ali o aparente sossego dá lugar a uma sinfonia de trinados, coaxares e zumbidos que denunciam a azáfama da busca de alimento. Aos poucos, a memória e o caderno de apontamentos enchem-se com as observações das primeiras horas: duas cegonhas que se lançam do ninho para logo voltarem a pousar numa zona húmida, alguns borrelhos a sondar o lodo das bordas do esteiro, bandos de patos a cruzar os ares, um peneireiro agitado, andorinhas em voos floreados. Mas o fascínio da observação da natureza também se prolonga pelos vestígios deixados por outros animais, cuja presença apenas se deixa adivinhar, como as pegadas minúsculas de ratinhos impressas na lama, uma teia de aranha ainda curvada pelo peso do orvalho ou o forte odor que denuncia a passagem recente de uma raposa. A paisagem é tão variada como a fauna que a habita. Os nossos passos encaminham-nos por entre arrozais alagados, prados de erva alta a ondular ao sabor da brisa, pequenos bosques, cursos de água ladeados por juncos e terrenos arborizados que propiciam uma sombra acolhedora quando o dia começa a aquecer.

Ao fim-de-semana é raro encontrar companhia, a não ser uns poucos agricultores a recolher feno para o gado que guardam nos currais. Nos campos divididos por sebes de amieiros e salgueiros, e muitas vezes pelos próprios canais que formam o enorme labirinto líquido, as vacas leiteiras pastam vagarosamente, rodeadas por pacatas garças-boeiras. Medas de feno cuidadosamente alinhadas, bateiras adormecidas nas margens ou sulcos de tractor impressas na terra completam o quadro rural.

É precisamente no lugar onde melhor se observa o elaborado sistema de comportas que permitem alagar ou secar os terrenos, o Canto dos Cachais, que as cores iridescentes de um pica-peixe riscam o ar com a rapidez de uma bala. A partir daí entra-se numa zona mais fechada, repleta de vegetação, onde até a própria água se encontra alcatifada. Entre os ramos dos amieiros, denunciados pela estridente cor amarela, vêem-se facilmente famílias de serzinos (pequeno pássaro cantador, de plumagem amarelo-esverdeada) e verdilhões (também conhecido por “canário-bravo”) em busca das sementes, enquanto os piscos fazem súbitas aparições no cimo das sebes. Uma multidão de insectos também se passeia por aí. Há os alfaiates patinadores, as libelinhas em posições acrobáticas, as borboletas bailarinas e os escaravelhos em trajes de gala. E uma rã que decide juntar-se à festa, esticando a língua para os que se atrevem a chegar demasiado perto. Apetece aplaudir, mas não há lugar a palmas num espectáculo que não tem fim.

http://www.rotas.xl.pt/0903/a04-02-00.shtml

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